Se você me perguntasse há três ou quatro semanas atrás, eu diria “bah” e não demonstraria interesse. De fato, eu até iria querer conversar sobre o assunto, mas só para demonstrar o meu ceticismo e descrença quanto à coisa toda. Mas de uma semana pra cá, a minha opinião mudou completamente. Pra vocês verem como não é assim tão simples trabalhar com opinião, afinal, você nunca sabe quando a sua vai mudar.
Eu estou falando de Second Life
, o mundo virtual que logo vai estar oficialmente presente no Brasil e fazendo barulho, aparecendo no Fantástico e no caderno de tecnologia do jornal da sua cidade, seja lá em que lugar do país você viva. E antes que alguém implique comigo porque eu me refiro à Second Life como “mundo virtual”, “vida virtual/paralela”, simplesmente “SL” ou o que me der na telha no momento, já adianto: Second Life não é um jogo, nunca foi, e quem se referir a ele como um jogo não está fazendo um bom trabalho jornalístico. O Second Life tem jogos dentro dele, muitos deles, de RPG a Shooters, passando por Corrida, Puzzles e Jogos de Azar. Mas ele, em si, não é um jogo, porque você não tem um objetivo dentro dele, um desafio a cumprir ou qualquer coisa que faz de um jogo de videogame o que ele é. (Não, ter polígonos e um personagem controlável não é suficiente.) Sendo assim, voltemos ao raciocínio inicial.

Second Life não tinha golfe. Alguém foi lá, construiu um campo, desenhou e programou a interface, e agora Second Life tem golfe.
Desde que eu fiquei sabendo, via Gamer.br, que o Second Life seria lançado oficialmente Brasil, eu tive o meu pé atrás. Não por causa do SL em si, mas sim por causa das reações que ele estava causando. Todo mundo muito empolgado, apostando que o SL seria “o novo Orkut” e dando o sucesso dele por aqui como certo, já que o mesmo Orkut serviu pra provar que o povo brasileiro não consegue ouvir as palavras “online” e “comunidade” na mesma frase e não correr para o computador mais próximo pra ver se não lhe deixaram nenhum scrap ou postaram na comunidade que algum “amigo” fez em sua homenagem. Quando eu digo que “todo mundo” estava achando isso, é claro que eu não quero dizer literalmente todo mundo, já que nada é unânime nesse mundo (exceto que os impostos sobre videogames são caros demais no Brasil), mas também não tô falando de duas ou três pessoas. Era realmente um grupo considerável.
No qual, claro, eu não me incluía. Primeiro porque comparar o Orkut com o Second Life é como comparar um saquinho de pipoca com uma sala de cinema. São coisas muito diferentes, apesar de terem uma certa relação entre si. Pra comer um saquinho de pipoca, você mete a mão dentro, aberta, aí fecha a mão e leva o que ficar preso até a boca. Simples. Para aproveitar uma sala de cinema você tem que separar um horário, ver a programação dos filmes, comprar o ingresso, entregar o ingresso ao carinha de roupa engraçada que rasga uma parte pra ele, ouvir em que sala o filme está passando, se orientar para chegar até lá, entrar, escolher um lugar que não seja nem muito perto da tela, nem muito longe da tela, nem ao lado de um casalzinho que provavelmente vai passar o filme fazendo barulhos engraçados, nem atrás de alguém que tenha um cabelo black power ou Marge-style, depois sentar e esperar o filme começar. Isso se você não marcar de ir com a galera, o que acrescentaria mais alguns passos como “marcar um ponto de encontro” e “escolher uma roupa que deixe claro que você não é mais um babaca”. Viu, é bem mais complicado.

Sim, você pode ser um Smurf suicida. É só aprender a criar um em 3D.
Eu duvidava que o SL ia “pegar” por aqui porque, apesar de eu não saber quase nada sobre ele, eu sabia algumas coisas:
- Não é um simples site, que você só precisa do Internet Explorer para acessar. É um programa, que você precisa baixar, instalar e configurar algumas coisas não tão simples assim antes de dar os primeiros passos;
- Você precisa de um computador que seja minimamente capaz de exibir um ambiente 3D interativo a mais de 10 frames por segundo
;
- Internet discada não é, nem de longe, suficiente. Você precisa de uma banda larga para andar por aí, ou de uma banda muito larga se quiser ouvir música ao vivo ou vídeo nos cinemas e salas de conferência do mundo virtual;
- É de graça, mas não 100%. Se você não tiver uma conta Premium (paga), fica bem mais difícil arranjar Lindens (o dinheiro de SL) para o seu Residente (o personagem em SL), e mesmo que você consiga, não é permitido a você comprar um pedaço de terra e construir uma casa ou qualquer outra coisa, de modo que você vai ter se contentar em gastar só com coisas para o seu personagem (roupas, basicamente);
- É divertido só andar por aí, conversando e vendo as coisas que as pessoas fizeram no mundo. Mas eventualmente você vai querer participar mais ativamente, construindo alguma coisa também, nem que seja uma camiseta que você não encontra pra vender. E aí não tem jeito, você vai ter que aprender a usar o software de construção 3D que existe em Second Life, e provavelmente também aprender alguma coisa de LSL
(Linden Script Language, a linguagem de programação que possibilita que os modelos 3D sejam interativos). Todo mundo garante que não são coisas difíceis de aprender, mas sem dúvida há tutoriais e guias
que você vai precisar ler. E levante a mão quem for concordar comigo se eu disser que o brasileiro médio, padrão, aquele que causou o boom do Orkut e dos Fotologs, vai ficar com preguiça de ler esses trecos todos e vai largar o jogo. Oh, quantas mãos.

Esse é o lounge onde a Reuters passa o noticiário de verdade. Pra quem tiver banda pra jogar e ainda carregar o vídeo em streaming, é claro.
Ontem à tarde eu dei, finalmente, os meus primeiros passos no mundo virtual de Second Life e pude comprovar todas essas coisas que eu já sabia. Além de muitas outras coisas que eu talvez fale a respeito em posts futuros. Portanto, o meu ceticismo quanto à crença dele se tornar o tal novo Orkut só aumentaram. Duvido, e muito. Mas ao mesmo tempo, eu nunca estive tão empolgado! Dane-se se o Brasil vai entrar na onda (até porque eu acho que vai, só não nas mesmas proporções do Orkut), mas eu vou estar lá. Sei que isso pode me render uma ou duas discussões com a minha namorada, mas ela tem que entender que isso é o futuro e eu quero fazer parte dele. Quem sabe ela não resolve entrar na onda também? Né, amor?

Fogueira, marshmellows, papo-furado e um banquinho vazio. Só falta você.