Será que eu não tenho coração?

VoadorReverend Anthony, do sensacional Destructoid (que eu ainda não decidi se é o ou um dos meus sites de games favoritos), escreveu há não muito tempo o artigo Diversão não é o bastante: porque os games têm que ir além do escapismo, onde ele disserta sobre como chegou a hora dos jogos eletrônicos servirem a outros propósitos além de divertir e entreter por um certo período de tempo.

No texto, ele defende a idéia de que os games são a “forma de arte definitiva”, contendo dentro de si todas as outras formas de arte, como música, pintura e literatura, e que nenhuma dessas outras formas de arte consegue evocar sentimentos tão bem quanto os jogos eletrônicos. Pelo fato de que nos games, quem sente é você, e não o personagem.

Como um exemplo, Reverend Anthony cita o trecho de Shadow of the Colossus, se não me engano da luta contra o quarto Colossus:

Ao jogador é dada quase nenhuma informação a respeito do enredo, a não ser que um deus nas Terras Proibidas lhe disse que se você matar 16 Colossi, a garota morta que você ama será rescussitada. Você vai fazendo o que tem que fazer, até que algo estranho acontece: um colossus não inicia o combate contra você. Um lindo colossus voador, que vive sobre um lago, te vê, toma conhecimento da sua presença, mas não ataca. Ele apenas observa, curioso. O jogador é forçado a começar a violência. Ao fazer isso, o jogador essencialmente assassina uma criatura que não fez absolutamente nada para ele. O jogador continua pelo jogo, matando cada “monstro” que encontra, mas não há nada de triunfal ou heróico ou “legal” sobre as mortes dos colossi: muitos agem como crianças assustadas (um colossi com forma de bulldog tem muito medo de fogo, e foge de sua tocha como um animal acuado), e todos eles morrem de uma forma estranhamente graciosa, enquanto toca uma música de funeral.

O jogador é forçado a repensar as suas ações, porque ele é a pessoa diretamente responsável por essas mortes. O jogador não está assistindo um filme no qual um personagem mata um gigante inocente; o jogador está fazendo ele mesmo isto.

A este ponto da leitura você já percebeu que o artigo (originalmente em inglês) é interessantíssimo e vale a leitura. Então deixemos isso de lado.

A questão é: quando você jogou Shadow of the Colossus, você notou que o colossus voador não inicia o combate? No caso, você sentiu pena por ter matado uma criatura que não te fez nada? Porque eu não senti nada disso, pelo menos não nesse gigante voador. Acho que a resposta para a pergunta do título do post é “sim”, afinal de contas.

26 Responses to “Será que eu não tenho coração?”


  1. 1 Lucas Comitre Martinez terça-feira, 17/04/2007 às 6:43 pm

    Eu acho que os games, a partir do momento que são uma forma de arte, se tornam um ‘meio’ de influência (melhor ainda: são uma influência antes de serem arte)
    E assim como eles influenciam as pessoas, o game também é influenciado por elas… afinal o game tem que vender e para isso tem que agradar o público alvo. Ao mesmo tempo que ele influência as pessoas ele também foi influenciado por elas, ou pelo meio (moda,
    situação, guerra atual…) e etc.
    Isso na minha opinião chega a ser quase um ato político mas isso é um outro assunto.

    Enfim, desde pequenos estamos acostumados a ‘matar’ os montros maus nos jogos, pular em cima deles mesmo quando não te fizeram nada… poderiamos passar adiante mas não, pulamos em cima deles.
    Isso virou uma coisa instintiva; eu nunca joguei Shadow of the Colossus mas pelo que li aí em cima, o jogo é uma crítica a isso (to falando besteira?)
    Pra mim, o jogo é uma coisa pra agente descansar e se divertir (e até se envolver dependendo do jogo). E sim, acho normal nós matarmos os bichos no meio do jogo… quem não matou um poring no Ragnarok Online, ou um Slime ou enfins quando teve que voltar para aquela cidade que atire a primeira pedra… afinal eles estão para isso!!

  2. 2 Lucas Haeser terça-feira, 17/04/2007 às 7:11 pm

    O artigo é genial mesmo, eu já tinha lido. Eu lembro que me senti mal por ter matado este colossus, outros também causaram a mesma sensação.
    Pra mim esse é um dos grandes méritos desse jogo, você não saber se está sendo um herói por fazer tudo aquilo para salvar uma garota, ou se você é na verdade o vilão, e está sendo extremamente egoísta em assassinar aquelas criaturas.

  3. 3 Érika quarta-feira, 18/04/2007 às 9:47 am

    Não tem coração mesmo! Eu nem joguei, só assisti, e fiquei morrendo de dó dos colossus! Acho que até comentei alguma coisa do tipo ‘Tadinho, ele nem fez nada pra você!’. E os olhinhos deles… poxa, é triste, vai!
    Seu frio! Desumano! Umbralino! Huauhauhauaa! 😛

    :***

  4. 4 Bicho do Mato quarta-feira, 18/04/2007 às 11:48 am

    comentário cheio de spoiler.

    O SoTC, é diferente apartir do primeiro colosso, me senti um mosquito que pica o humano para obter alimento, só que fazendo um estrago maior.
    No 10º colosso penso eu, aquele que você tem que guia-ló por pilares para que ele os quebre até que ele tenta derrubar um ficando tonto e perdendo sua proteção deixando seu ponto fraco finalmente a vista, neste colosso quando lhe enfiava a espada, ele rugia, expressava a dor de forma tal que percebia-se claramente que ele suplicava por sua vida, meu irmão pediu para parar de matar o colossu. Desliguei o console para depois terminar o serviço e ver finalmente o fim, quando o cavalo se vai foi outra grande perda, nesse momento gostaria de voltar e acabar com a garota, pois ela era o motivo da chassina. Segui em frente e no fim virei um colossu, a frustação de estar caminhando para a morte, tanto poder e nada poder fazer, isso eu senti…
    No fim veio a “paz”, mas a que preço!?

  5. 5 Gil "Outer Heaven" quinta-feira, 19/04/2007 às 8:38 am

    ¬_¬ Jogue Kingdom Hearts II Final Mix + e treino o coração, veja filmes de sensibilidade e reabilite-se. Um juiz deveria penalizá-lo por assassinar Colossis inocentes… eu tô quase acreditando que você é uma versão Ninguém (Nobody) do Fabinho que conheci… u_u tá, tá vou parar de jogar RE Chain of Memories e dormir um pouco.

  6. 6 Gustavo Hitzschky quinta-feira, 19/04/2007 às 6:51 pm

    Fabito, sinceramente não me recordo se me dei conta de que o colosso voador não ataca, sei que foi um dos combates que mais gostei. Voar junto com o colosso é uma coisa absurda e até é difícil de explicar.

    Bom, eu sim tinha muito dó de matar os inimigos. Os olhos, cara…realmente parecem de criança e não são nada ameaçadores, vc sente pena de ter que eliminá-los para poder avançar. Sim, nunca vou me esquecer da expressão deles, é como se estivessem pedindo ajuda, socorro..como se avisassem que aquilo que o protagonista está fazendo ainda vai se voltar contra ele. Até certo ponto, estavam certos.

    Esse jogo é único. Assim como o artigo que vc menciona.

  7. 7 Gilberto Tensai sexta-feira, 20/04/2007 às 4:22 pm

    Eu cheguei a ficar meio sentid com a morte do segundo colosso, mas o resto foi de boa, o jogo me supreendeu muito e eu tenho coração sim ^^-

  8. 9 JP Nogueira terça-feira, 24/04/2007 às 4:28 pm

    Curioso isso. Outro dia eu estava jogando um MMORPG e fui gankear uns low-level. O medo de ver um hi-level fez vários ficarem nervosos e saírem correndo, outros começavam a dar emotes como /cheer, /wave ou /kiss, e tinha aqueles que não davam a mínima.

    No final das contas, eu matava quase todos. E das maneiras mais divertidas possíveis. Deixava vivo apenas os que faziam algo surpreendente (como me enfrentar). Daí eu parei pra pensar o quanto isso é escroto. Eu experimentei uma sensação que não pode ser comparada com a de assassinos reais, mas eu tive o gostinho disso. “Matar é tão fácil” foi algo que me assombrou por alguns dias, me incomodando com um sentimento de culpa.

    Mas é um jogo, apenas isso. A subversão do mesmo é por conta de cada um. No caso do post, joguei muito pouco de Shadow of the Colossus. Mas o que me surpreendeu não foi um possível sentimento de culpa, mas a satisfação de mais uma missão cumprida.

    Eu escuto comentários do tipo “Ele é bonitinho, não mata!” desde sempre também. Mas se para avançar eu preciso fazer isso, sorry! Não é como a vida, que eu posso falar “Não mato você!” e sou feliz. Se eu não matar, eu posso parar de jogar porque nada novo acontecerá.

    Os jogos têm objetivos, sejam eles terminar a fase, matar o chefe, evoluir um personagem ou tralalá bolinha. Então, joguemos! Depois, conversamos sobre a experiência de cada um ^^

  9. 11 Bruno Alexander Zerbinatti quarta-feira, 25/04/2007 às 12:47 am

    Matar alguém que é muito abaixo de seu nível, sem dar chances, por nenhum objetivo aparente😛

  10. 12 Fabio Bracht quarta-feira, 25/04/2007 às 12:01 pm

    Ah, não sabia porque em nenhum dos poucos MMOGs que eu joguei havia essa opção.

  11. 13 JP Nogueira quarta-feira, 25/04/2007 às 4:21 pm

    7. Gank

    verb (Online, MMORPG usage)
    1. To kill another player using a group of players
    2. To kill another player using any means that places the played to be killed at a substantial disadvantage.

    Widely popularised following the success of World of Warcraft, the word “gank” comes from “gang kill”, used in earlier MMORPGs like Ultima Online. A gang kill occurs when a group (or gang) of players attack a single one and kill him/her with relative ease.

    The meaning has now extended to any player kill where the killed player had little chance to avoid death.

    “I was ganked by a level 60 horde”
    “You had no chance to avoid that rogue! Ganked!”

  12. 14 Nicole DC quinta-feira, 26/04/2007 às 4:13 pm

    Eu não gosto de GTA san andreas. além de nõ me identificar com o protagonista eu não gosto de roubar os carros das velhinhas…

  13. 15 Jaiminho sexta-feira, 27/04/2007 às 2:26 pm

    o ser humano será uma nova raça o dia que um chegar nesse colossi, olhar nos seus olhos e dizer: não vou matá-lo. Largar o controle na mesa e sair… pular no campo… voar com as borboletas.

  14. 16 DK domingo, 29/04/2007 às 8:09 pm

    A partir do momento em que analisamos o jogo dizendo que os colossi não são os vilões, tampouco devemos dizer que o protagonista é um “vilão”. Ele é apenas alguém que, como muita gente, faria o necessário para ter quem ama de volta. Ele é um personagem nobre e faz o que tem que ser feito para conseguir o que quer. Os colossi também são personagens nobres, como deuses.
    Devemos também perceber que o jogo é originário de um país oriental e que as convicções implícitas do jogo pouco refletem o sentido oriental de certo ou errado. Ao lermos livros ou vermos filmes japoneses, chineses, coreanos, percebemos que ideais de honra, paz e, de certa forma, estoicismo estão muito presentes.
    O protagonista não mata os colossi por estar com raiva deles ou odiá-los, assim como os colossi não se defendem simplesmente por terem ódio do protagonistas, todos os personagens agem por instinto. Todos são animais e lutam por sua sobrevivência, física ou espiritual.
    O jogo trata mais profundamente de questões de honra e estoicismo que simplesmente de conceitos muitas vezes superficiais como “ah, o protagonista é ruim por ter matado um ser que não o atacou antes!”.
    Desde quando no mundo real é tão fácil “catalogar” o que é bom e o que é ruim?
    Sim, em alguns momentos eu ficava chateado por ver os colossi morrendo, principalmente quando rendiam batalhas espetaculares, mas a pena que sentia era de ter perdido um adversário excelente, e não simples pena pelo fato deles terem morrido, afinal, a morte é parte essencial da vida. E mesmo nesses momentos me sentia bem por saber que estava mais perto de meu objetivo.
    Shadow of the Colossus e Ico são os melhores jogos já feitos, em muito por terem a história tocante, em cada um de um modo diferente!

  15. 17 DK domingo, 29/04/2007 às 8:15 pm

    Corrijam aí:

    Devemos também perceber que o jogo é originário de um país oriental e que as convicções implícitas do jogo pouco refletem o sentido OCIDENTAL de certo ou errado.

    Spoiler:

    eu tive, sim, vontade de desligar o video-game por causa da “morte” do Agro! O Agro é mó gente boa!

  16. 18 menino.Guaiaqui terça-feira, 29/05/2007 às 7:54 am

    Pois é DK.
    Como você disse: “[…]a morte é parte essencial da vida”.
    Entretanto parece que o personagem que controlamos não aceita esse “fato” desde o início(se pensarmos que ele não aceita a morte daquele personagem feminina, cuja natureza de relação entre eles desconhecemos).
    E a face dos colossi, de cada novo adversário com sua deslumbrante elegância é a reafirmação desse ponto inicial: a decisão de trazê-la à vida novamente – a qualquer preço.
    Mas, quem, pensaríamos agora, disse que esse desejo de retornar do mundo dos mortos é um desejo dela? Pelo que leio e ouço por aí esse desejo nasce da relação entre eles, mas só é levado em diante a partir de nossas próprias ações.
    Eu, para dizer a verdade, não chorei nem acho tão assim relevante essa exigência – a das lágrimas.Apesar de que o game sempre me traz algo de novo para avaliar e me interessar.Nem mesmo terminei ainda o Shadow of the Colossus; mas confesso que fiquei horas apenas cavalgando e apreciando as imagens, a sonoridade, sem sequer me importar em começar a liquidar os “inimigos” ou desafios que eles nos reservam.É uma experiência e o valor da experiência só “estudando” o estoicismo a gente pode realmente avaliar melhor; do que estamos falando/ ou o que você falou – particularmente gosto da leitura feita por Gilles Deleuze sobre o estoicismo; …é só uma dica, porque bom mesmo é o jogo:um trabalho, em seguida ao ICO, mas que ainda assim consegue se manter sem precedentes.Boa proposta.Dá p’ra chorar é por não ver coisa desse tipo com tanta qualidade com muita frequência no catálogo de títulos.

  17. 19 Thiago quinta-feira, 07/06/2007 às 10:58 pm

    Pô. Me cortou o coração matar cada um dos colossi, cara. Every single one.

    Vai, pode me chamar de bicha.

  18. 20 Ivane Maria Rodrigues dos Santos Loureiro terça-feira, 26/02/2008 às 11:17 pm

    Como eu estava dizendo , Sora não sabia que a Fera estava sendo controlada , pela Organization 13 . Para que Sora possa descobrir , ele vai até o quarto da Bela . Sora vê que o castelo possui dois lances de escada . Goofy diz que o lance da direita vai para o quarto da Bela . O lance da esquerda vai para o corredor . Bela diz que os servos de Fera , que trabalham no castelo , foram presos , dentro de uma sala . Bela diz que não sabe o que está acontecendo com Fera . Bela pede que Sora procure os servos de Fera , pois eles poderiam saber . Quando Sora entra na sala , um monstro , que tinha acordado , agarrado numa porta , ataca o Sora . Sora enfrenta o monstro . Ele consegue libertar os servos de Fera . Os servos de Fera dizem que não sabem o que está acontecendo com a Fera .

  19. 21 tom segunda-feira, 03/11/2008 às 8:02 am

    eu gosto do chein of colossus mais eu não tenho o jogo mas meu primo tem e minha amiga e também tenho uma pergunta como se finca a espada no ponto fraco dos colossus? Ainda não consegui vencer o primeiro colosso haaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!!!!!! Mais eu comecei a jogar ontem a noite né

  20. 22 leonardo w.s sábado, 13/11/2010 às 11:46 pm

    cara eu acho normal, porque não é vida real é apenas um jogo. todos tem coração nao apenas geneticamente mas como emocionalmente.


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